quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Hipérbole

 Durante muito tempo achei a minha vida insignificante, básica, "sem sal". Ouvia a história de vida dos meus amigos e conhecidos e ficava com água na boca para viver uma terça parte do que eles viviam. Parecia uma vida tão grande, tão cheia de vida, de emoção e sentimentos, de gargalhadas abertas e cúmulos fantásticos. Uma vida cheia de melhores e piores, nada "normal". Sempre acontecia a coisa mais fascinante ou a coisa mais horrível de todas, sempre eram os mais afortunados ou os mais azarados, o que me intrigava. "Por que é que a minha vida não é assim? Por que é que não acontece nada de singular na minha vida? Queria ter uma vida assim!"

 Graças a Deus não me mantive nesta ilusão durante muito mais tempo, ainda acabava doente. Tudo acabou quando ouvia uma outrora amiga minha a contar um acontecimento hilariante. Já estava a ficar alarmada, quando me apercebi que também tinha lá estado. Ou seja, eu tinha vivido aquele momento que ela estava a descrever, contudo, na minha cabecinha, ela não era nada assim, era uma história como as outras. Isto levou-me à verdade.

 A verdade, também conhecida por hipérbole, era o problema da minha vida monótona. Acontecia tudo e mais alguma coisa na vida dos outros, porque eles têm mais amor à hipérbole do que ás próprias mães e provavelmente nem sabem o que significa. Contudo, eu passo a explicar, a hipérbole é "expressar algo de maneira exagerada ou intensificada", ou seja, é dizer que morreste de rir quando só deste um risinho, ou quando uma criança diz que o pai dele é o melhor do mundo, quando na verdade ele saiu para ir comprar leite (desculpem).

 Todavia, a hipérbole não é o meu único problema (antes fosse). Como os outros têm a mania da hipérbole, eu tenho a mania do eufemismo. Exatamente, como é que eu queria mostrar aos outros uma vida fascinante, se eu sozinha já desvalorizava a medíocre que tinha? A única explicação razoável é que, de certeza, sou muito humilde. Mais uma vez, para quem não sabe, o eufemismo "suaviza ou ameniza as expressões", isto é, literalmente o contrário da hipérbole. Pois assim, minha amiga (eu mesma), não dá para mostrar aos outros a vida maravilhosa que tens.

 Agora vocês devem pensar que eu já aprendi a usar a hipérbole e que agora toda a gente tem inveja da vida espetacular que eu tenho. Opa...Não. Continua a mesma coisa, só agora não acredito em metade dos "muitos" referidos pelos outros, nem faço questão de prestar a atenção de antes. Finjo espanto e digo "Amém".




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